
Comitiva de Rio Claro com representantes do Itesp em reunião na capital paulista
A dívida história do Brasil com a comunidade negra, que ainda não foi paga, conta com um dos principais capítulos em Rio Claro. A cicatriz profunda se dá pela usurpação da área de milhares de hectares conhecida como Chácara dos Pretos doada por Maria Tereza de Jesus ao ex-escravo Alfredo Marques da Mata em 1850.
A polêmica teve início em 1954, data em que grupo de pessoas conhecidas e contemporâneas personalidades da cidade apoderaram-se da área após enganarem os familiares de Alfredo da Mata. Hoje, descendentes do ex-escravo lutam para provar que a condição inculta dos negros, donos da área na época, facilitou a lavratura fraudulenta de escrituras.
Neste contexto, comitiva de Rio Claro formada pelo vereador Paulo Guedes, secretário municipal de Negócios Jurídicos Gustavo Perissinotto, Cláudio Roberto Pereira e Arlindo Aparecido dos Santos (representantes das famílias), esteve na sede do Instituto de Terras do Estado de São Paulo, Itesp, na capital paulista na última quarta-feira, 6.
No Itesp, a comitiva foi recebida pelo diretor executivo Marco Pilla, chefe de Gabinete Carlos Henrique Gomes e pela assessora especial Andréa João. Após receber fato material, que inclui documentos e matérias publicadas pela imprensa, o Itesp concluiu que a legitimidade do caso é inquestionável mas de difícil solução.
A pedido de Gustavo Perissinotto, o instituto vai elaborar relatório histórico sobre o ocorrido na Chácara dos Pretos o qual será utilizado para que o assunto possa ser levado ao conhecimento da União. “O que estas famílias esperam é reparação. A compensação, caso ocorra, terá de ser financeira já que a devolução da área é impossível devido ao avanço populacional e até a construção de rodovia”, disse o secretário.
Para Paulo Guedes, é preciso estabelecer rota de trabalho semelhante a da Comissão Nacional da Verdade onde graves violações ocorridas entre as décadas de 40 e 80 são apuradas. “Este caso é grave demais. Vamos unir forças para que a comunidade negra possa ser ressarcida. Eles foram enganados por pessoas que condenaram gerações com a usurpação de suas terras”, enfatizou o vereador.
Arlindo dos Santos, conhecido também como Santinho, hoje com 70 anos recorda-se que viveu na Chácara dos Pretos até os 13 anos. Ele se emociona quando fala da época em sua família foi retirada do local: “Foi bem triste. Perdemos tudo.Era uma vida humilde, porém, feliz. A gente se alimentava do que plantava. Arrancaram tudo da gente”, lamentou.